Um mau negócio
Prefácio
Prefácio
Anton Checkov é um escritor e dramaturgo russo, conhecido como o mestre moderno dos contos do final do século 19 e início do século 20. Ele nasceu no dia 29 de janeiro, de 1860, em Taganrog, Rússia. Suas histórias mostram a profundidade da natureza humana, o verdadeiro significado dos acontecimentos diários e o limite entre a comédia e a tragédia. Checkov morreu de tuberculose no dia 15 de julho, de 1904, em Badenweiler, Alemanha.
Um mau negócio é um conto sobrenatural que apresenta um vigia e um homem misterioso, que diz ter voltado do mundo dos mortos. Apesar de não deixar clara a origem do homem, Checkov indica que ele estava tentando distrair o vigia, a fim de não levantar suspeitas para seu possível comparsa, que estaria roubando uma igreja nas proximidades. Mesmo relatando tal roubo, o autor não o relaciona claramente ao homem misterioso da história, o que leva ao leitor a dúvida sobre ele ser um espírito ou só um ladrão esperto.
Notas sobre a tradução
Esta tradução do conto Um mau negócio foi feita a partir de uma versão em inglês, de sua versão original em russo. A tradução foi realizada por Adriano Ricardo Celanti de Freitas, aluno de especialização de Tradução de Inglês, da Faculdade Estácio de Sá, com revisão de Antônio Magalhães, do mesmo curso.
A escolha de não traduzir nomes próprios, como nome da cidade e dos personagens, torna a leitura mais intrigante e consistente, uma vez que em sua tradução para o inglês já foi realizada.
Um mau negócio
Anton Chekhov
– Quem está aí?
Ninguém responde. O vigia não consegue ver nada, mas em meio ao sibilar do vento e às árvores, ele escuta claramente alguém vindo pela rua, em sua direção. Uma noite de março, nublada e nebulosa, envolve a terra, e para ele a terra, o céu e até ele mesmo com seus pensamentos eram um misto de algo obscuro e impenetrável. Ele continua às cegas.
– Quem está aí? – O vigia diz novamente, imaginando ter escutado um sussurro e uma risada abafada. – Quem está aí?
– Sou eu, amigo... – responde um homem velho. – Mas quem é você?
– Eu?... Um viajante.
– Que tipo de viajante? – Vocifera o vigia, tentando esconder o seu desespero. – O que diabos você quer aqui? Rondando um cemitério à noite, seu maldito !
– Não me diga que este lugar é um cemitério?!
– E o que mais seria? Mas é claro que é um cemitério! – Não consegue enxergar?
– A-a-ah. . . – Deus do céu! – Lamenta o velho – Não vejo nada, meu caro amigo, nada mesmo. – E essa escuridão! Não se consegue ver a palma da mão nessa escuridão, meu amigo. – A-a-ah. . .
– Mas quem é você?
– Sou um peregrino, meu amigo, um andarilho.
– Os demônios, os notívagos. . . Ótimos peregrinos! São todos uns beberrões... – murmura o vigia, assegurado pelo tom e trejeitos do estranho. – Você leva as pessoas a pecar por você. Bebem o dia todo e ficam perambulando à noite. Mas suponho que você não está sozinho; escutei dois ou três de você .
– Estou sozinho, meu amigo. Bem sozinho. A-a-ah nossos pecados. . . O vigia esbarra no homem e para. – Como veio parar aqui? – ele questiona.
– Eu me perdi, meu caro. – Eu estava indo em direção à Mitrievsky Mill e me perdi.
Deus! – É essa a estrada para Mitrievsky Mill? Seu cabeça de bagre! [N27] Para Mitrievsky Mill você deve seguir mais à esquerda, pela estrada fora da cidade. Devia estar bebendo e se desviou alguns quilômetros do seu caminho. Deve ter tomado umas na cidade.
– Sim, eu bebi, meu amigo.... Confesso que bebi; não vou esconder os meus pecados. Mas para onde devo seguir agora?
– Siga essa rua até o final e vire logo depois à esquerda até que tenha atravessado todo o cemitério, à direita do portão. Você vai achar um portão no final... Abra-o e vá com Deus. Tome cuidado para não cair no canal. E quando você estiver fora do cemitério, você deve seguir pelos campos até que saia na estrada principal.
– Que Deus te dê saúde , meu amigo. Que a Virgem Maria tenha piedade. Você poderia me acompanhar, bom homem. Tenha piedade! Leve-me até o portão.
– Como se eu tivesse tempo para perder! Vá sozinho!
–Tenha piedade! – Vou rezar por você. – Não enxergo nada; não é possível ver a mão diante dos olhos, amigo... Está muito escuro, escuro demais! Mostre-me o caminho, senhor!
– Como se eu tivesse tempo de te guiar; se eu fosse bancar babá para todos, eu nunca terminaria de fazê-lo.
– Pelo amor de Deus, me guie! – Não enxergo nada, e eu tenho medo de passar sozinho por este cemitério. É aterrorizante, meu amigo, aterrorizante; eu tenho medo, meu bom homem.
– Não vou me livrar de você, não é? – Suspira o vigia – Tudo bem, então venha comigo.
O vigia e o andarilho seguem juntos. Os dois seguem lado a lado, em silêncio. Um vento úmido e cortante sopra em seus rostos e as árvores sussurram e derrubam grandes gotas de água sobre eles ... O caminho é quase coberto por poças.
– Só há uma coisa que me intriga, – questiona o vigia após um demorado silêncio – como você chegou aqui. O portão está trancado. Você pulou o muro? E se você pulou o muro, essa é a última coisa a se esperar de um homem velho como você.
– Eu não sei meu amigo, realmente não sei. Não sou capaz de dizer como cheguei até aqui. É uma visita, uma punição do Senhor. Realmente uma visita, o mal me confundiu. Então você é o vigia daqui, amigo?
– Sim.
– O único em todo cemitério?
Uma forte rajada de vento faz os dois pararem por um minuto. Esperando que o forte vento diminua, o vigia responde:
– Há três de nós, mas um está com febre e o outro dorme. Ele e eu nos revezamos.
– Sim, sem dúvidas, amigo. Que vento! Até os mortos devem escutá-lo! Ele uiva como uma fera selvagem! – A-a-ah.
– E de onde você vem?
– De bem longe, amigo. Sou de Vologda, um lugar distante. Vago de um lugar santo para outro, rezando pelo povo. Salve-me e tenha misericórdia, ó, Senhor!
O vigia para acender seu cachimbo Ele se curva atrás das costas do andarilho e acende alguns palitos de fósforo. O brilho do primeiro palito de fósforo ilumina por um instante a parte direita da rua, uma lápide branca com um anjo e uma cruz escura; a luz do segundo palito brilha e é apagada pelo vento, lampeja como um relâmpago no lado esquerdo e nada da escuridão surge, exceto por um tipo de grade; a luz do terceiro palito ilumina ambos os lados, revelando a lápide branca, a cruz escura e a grade que contorna o túmulo de uma criança.
– O sono eterno, os eleitos descansam! – o estranho murmura, com respiração alterada. – Todos descansam como iguais, ricos e pobres, sábios e tolos, bons e perversos. Todos têm o mesmo valor agora, E todos dormem até o último som da trombeta. Que o Reino dos Céus e a paz eterna sejam deles.
– Aqui estamos caminhando juntos agora, mas chegará o dia em que nós mesmos estaremos deitados aqui – pondera o vigia.
– Com certeza, com certeza, todos nós iremos. Não há homem que não morrerá. – A-a-ah. Nossos feitos são perversos, nossos pensamentos, enganosos! Pecados, pecados! Minha alma é amaldiçoada, sempre cobiçosa, e minha barriga é gananciosa e libidinosa. Eu enfureci o Senhor e não há salvação para mim neste mundo e nem no próximo. Estou atolado em pecados como a minhoca na terra.
– Sim, e você deve morrer. – Você está certo.
– A morte é mais fácil para um peregrino do que para pessoas como nós – diz o vigia.
– Há diferentes tipos de peregrinos. Há os verdadeiros que temem a Deus e cuidam de suas próprias almas, e há os que perambulam em cemitérios à noite e são banquetes para os demônios. . . S-sim! E há aquele que poderia rachar a sua cabeça com um machado se assim quisesse e te deixar sem ar!
– O que quer dizer com isso?
– Ah, nada... Imagino que este seja o portão. Sim, é isso mesmo . Abra-o, bom homem.
O vigia, tateando a escuridão, abre o portão e guia o andarilho, puxando-o pela manga de sua roupa e diz:
– Este é o fim do cemitério. Agora siga através dos campos até encontrar a estrada principal . Perto daqui haverá a borda do canal – não caia nele... E quando você estiver na estrada, vire à direita e siga até encontrar o moinho ...
– A-a-ah – suspira o andarilho após uma pausa – e agora acho que não há motivo para ir à Mitrievsky Mill.... Por que diabos eu deveria ir até lá? Eu deveria ficar um pouco com você, aqui, senhor…
– E porque ficaria aqui comigo? – Ah... É mais alegre aqui, com você!
– Quer dizer que encontrou um companheiro animado, não é? Você, peregrino, gosta mesmo é de uma piada...
– Tenha certeza que sim – diz o estranho, com uma risada rouca. Ah, meu caro homem, creio que se lembrará de mim por muitos anos!
– E porque eu deveria me lembrar de você?
– Porque eu te fiz de bobo... Se eu sou um peregrino? Não sou mesmo um peregrino.
– O quê você é então?
– Um morto... Acabei de sair de meu caixão…. Você se lembra de Gurbaryev, o chaveiro, que se enforcou na semana das comemorações? Bem, sou Gurbaryev em pessoa! ...
– Não pode ser !
O vigia não acredita nele, mas sente um frio na espinha, um medo sufocante e começa a procurar pelo portão.
– Espere, para onde você vai? – adverte o estranho, puxando-o pelo braço. Acalme-se. . . Que tipo de amigo é você! Como pode me deixar aqui sozinho?
– Solte-me! – Ordena o vigia, tentando soltar seu braço.
– Pare! Eu ordeno que pare. Não lute, seu cão imundo! Se quiser continuar entre os vivos, acalme-se e fique calado até que eu diga o contrário. Se eu quisesse derramar sangue, você já seria um homem morto há muito tempo, seu malandro desprezível…. Pare!
Os joelhos do vigia cedem. Com medo, ele fecha os olhos e se encolhe junto à parede. Ele pensa em pedir ajuda, mas sabe que seus gritos de desespero não seriam suficientes para alcançar ninguém. O estranho fica ao seu lado e o segura pelo braço… Três minutos se passam em silêncio.
– Um tem febre, o outro dorme e o terceiro vê peregrinos pelo caminho, – sussurra o estranho. – Vigias da capital, estes valem o salário que ganham! S-sim, meu irmão, os ladrões sempre foram mais astutos do que os vigias! Fique parado, não se agite...
Cinco minutos, dez minutos se passam em silêncio. De repente, o vento traz consigo o som de um assobio.
– Bem, agora você pode partir, – diz o estranho, soltando o braço do vigia. – Vá e agradeça a Deus por estar vivo!
O estranho assobia também, passa pelo portão e o vigia o escuta saltar sobre o canal.
Com um mau pressentimento em seu coração, o vigia, ainda tremendo em terror, abre o portão, em dúvida, e retorna, com os olhos ainda fechados.
Ao cruzar a avenida principal, ele escuta passos apressados e alguém pergunta, sibilando: – É você, Timofey? Onde o Mitka está?
E após correr até o fim avenida principal, o vigia enxerga um lampejo de luz na escuridão. Quanto mais perto ele se aproxima da luz, mais assustado ele fica e mais forte é o mau pressentimento.
– Parece-me que a luz vinha da igreja, – ele pensa. – Mas como a luz chegou até lá? Salve-me e tenha piedade, Santa Mãe! Que assim seja.
O vigia para por um minuto diante da janela quebrada e olha com horror em direção ao altar.... Uma pequena vela que os ladrões haviam esquecido de apagar, tremeluz com o vento que entra pela janela e lança pequenos feixes de luz avermelhada sobre as vestes jogadas no chão, sobre o armário revirado e sobre as pegadas perto do altar e das oferendas.
O tempo passa e o sibilar do vento preenche o pátio da igreja com som de sinos...
TRADUÇÃO: Adriano Ricardo Celanti de Freitas
Arquivo: https://drive.google.com/open?id=1rS-dGj-qO_4VZIWlAFjYfQELkPg-nCinqFGDg_B7EXA
Pinnochio in Venice
Pinóquio
em Veneza
Contracapa
para Pilar, compagna
SUMÁRIO
UMA NOITE DE NEVE
1.
Arquivo: https://drive.google.com/open?id=1rS-dGj-qO_4VZIWlAFjYfQELkPg-nCinqFGDg_B7EXA
Pinnochio in Venice
Prefácio do
tradutor – Pinnochio in Venice
Pinocchio in Venice foi uma das traduções mais
desafiadoras e interessantes que tive a oportunidade de fazer. O estilo de
Coover é incrivelmente prolixo, sem, no entanto, ser monótono. Os apostos,
parêntesis e períodos longos, todos contribuem para o humor e a ironia presente
na obra. Isso foi grande parte da indagação sobre manter a mesma pontuação ou
adaptá-la para o mais comum do português. Neste sentido, preferi manter a
pontuação e com ela, toda carga de leitura incessante que as aspas, vírgulas e
pontos e vírgulas são capazes de passar.
Em relação aos termos em italiano, mantive todos
intactos para passar a comicidade tão presente nos diversos tipos de arte na
Itália. O mesmo aconteceu com os nomes próprios que apareceram no sumário, já
que a tradução se restringiu às primeiras quatro páginas do livro e ao seu
primeiro capítulo.
A abundância de adjetivos, por vezes não muito
comuns, também foi um dos motivos de mais pesquisa. Em diversos casos
manteve-se, em português, o humor que só é transmitido quando um adjetivo
desnecessariamente pomposo é utilizado.
Pinocchio in Venice é uma obra que gostaria de
ver traduzida comercialmente e que certamente colocaria à prova as habilidades
de qualquer tradutor.
Antonio Magalhães
Pinóquio
em Veneza
por Robert Coover
a.b.e-book v3.0 / Notas em EOF
Contracapa
Pinóquio em Veneza é uma
releitura carnavalesca do clássico conto de fadas - assim como o realismo
mágico de Thomas Mann em Morte em Veneza
e Lolita de Nabokov - com a marionete,
agora um idoso esteta vencedor do Prêmio Nobel, que retorna à Veneza para prestar
sua última homenagem. Ao se tornar de madeira novamente, o herói de Robert
Coover se reencontra com seus velhos amigos e inimigos, enquanto procura
incessantemente pela Fada dos Cabelos Azuis para que o transforme em humano
mais uma vez. Escrita no estilo inconfundível de Coover, além de hilária e
indecente, essa aventura é também uma brilhante discussão sobre o que significa
ser humano.
Pinóquio em Veneza
representa o melhor de Coover.
"Há muito o trabalho do
Sr. Coover ocupa um lugar de honra. . . Ele escreve com uma energia linguística
assustadora, salpicado por um vocabulário Burgessiano, e um amor brutal por
tudo que é cômico e grotesco. Essa é um obra espetacular de humor escatológico.
. . Amiúde erótica e frequentemente hilária". -- Salman Rushdie
"Pinóquio em Veneza tem tantas sacadas de ceticismo intelectual em
série quanto se poderia desejar". -- The
Washington Post.
"Robert Coover é um de
nossos mestres agora. A exuberância Babilônica e turbulenta de sua mente é
nutrida e guiada pela paixão por sua arte. Ele parece ser capaz de fazer o que
quiser". -- The New York Times Book
Review
"Coover escreveu uma
nova versão devastadora não apenas da famosa história de Collodi, mas ainda
mais das representações normalmente batidas de Veneza. Pouquíssimos autores
deste século . conseguiram escrever uma versão tão brilhante e profética do
destino da Veneza infestada de turistas."
-- Rosella Mamoli Zorzi, Universidade de Veneza
Rockefeller
Foundation, the Guggenheim Foundation, and the National Endowment for the Arts.
Ele é o
autor de, entre outros títulos, John's Wife, The Public Burning, Gerald's
Party, e
Spanking the Maid. Vive em Providence,
Rhode Island nos Estados Unidos e é professor de literatura eletrônica
Copyright © 1991 por
Robert Coover
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro
pode ser reproduzida em qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou
mecânico, inclusive sistemas de armazenamento e recuperação de informação, sem
permissão por escrito da editora, exceto por um revisor, que poderá citar
breves passagens em seus trabalhos.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e
eventos são frutos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com eventos,
locais ou pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Primeira edição por Linden Press/ Simon & Schuster em
1991 Primeira edição pela Grove Press publicada em janeiro de 1997
Publicado
simultaneamente no Canadá Impresso nos Estados Unidos da América
Library
of Congress Cataloging-in-Publication Data Coover, Robert. Pinocchio
in Venice / Robert Coover.
p. cm.
ISBN 0-8021-3485-8
1. Pinocchio (personagem
fictício) - Ficção
2. Homens idosos - Itália
- Veneza - Psicologia - Fiction.
3. Marionetes - Itália -
Veneza - Ficção.
4. Veneza
(Itália) - Ficção. I. Título. [PS3553.O633P5 1997]
813'.54 - DC20
Grove Press 841 Broadway
New York, NY 10003
2 4 6 8 9 7 5 3 1
para Pilar, compagna
e
agradecimentos especiais para William Boelhower, Alide Cagidemetrio, Jackson
Cope, Giovanna Covi, Carlo Lorenzini, Giano Lovato, Allen Peacock, Fernando
Tempesti e Rosella Zorzi.
SUMÁRIO
UMA NOITE DE NEVE
1. Entrada
2. Companheiros Mascarados
3.
O Gambero
Rosso
4. Noite dos Assassinos
5. O Resgate de Alidoro
6. O Cão de Guarda Filosófico
7.
Um
Estranho Nascimento
8. O filme de Sua vida
DIA DE AMARGURAS
9. A Farinha do Diabo
10. Os Três Reinos
11.
Arte
e o Espírito
12. Na Casa dos Mortos
13. O Grilo Falante
14. Gran Teatro dei Burattini
15.
Um
Passeio de Gôndola
16. O Homem Pequeno
PALAZZO DEI BALOCCHI
17. Vista da Torre do Relógio
18. O Milagre da Hora Errada
19.
No
Túmulo de L'Omino
20. O Genuíno Sonho Molhado
CARNAVAL
21. A brincadeira de Platão
22. A Procissão em Honra do Conde Agnello
Ziani-Ziani Orseolo e a Madonna dos Órgãos (Nova Aquisição)
23.
O
Último Capítulo
24. La Bella Bambina
25. Cozido no Amor
26. A Estrela da Dança
27.
O
livro de Matemática Fatal
28. O Campo dos Milagres
MAMMA
29. Saída
UMA NOITE DE NEVE
1.
ENTRADA
Em uma noite de inverno do ano 19--,
depois de viajar cansativamente por muitos séculos, atravessando dois
continentes, perseguido por um clima severo e ameaçado por coisas ainda piores,
um emérito professor idoso, de uma universidade americana, sobrecarregado pelo
fardo das enfermidades, jet lag, grandes incertezas e excesso de bagagem, desce
cuidadosamente de seu vagão, carregando seu fardo, em uma plataforma de trem na
cidade que muitos creem ser a mais mágica do mundo, sentindo algo diferente
daquele terror ardente que iniciados dizem sofrer quando seus olhos recaem pela
primeira vez numa imagem de eterna beleza, algo mais próximo daquele calafrio
que atinge os viajantes solitários que se encontram no lugar errado na hora
errada. "Ah", ele resmunga, olhando para a plataforma longa e
monótona, palidamente iluminada por lâmpadas fluorescentes tubulares e anúncios
espalhafatosos de hotel e quase vazia agora, não fosse a presença de alguns
esquiadores que desapareciam pelas portas de vidro na outra extremidade, se são
de fato portas de vidro e não apenas o nevoeiro rodopiante (ele compartilha em
seu declínio do martírio da pobre Santa Lucia, cujo nome foi dado a esta stazione cruelmente funcional), "no
que eu estava pensando!"
Ele
chegou, como fazem a maioria dos italianos, por meio do que os estrangeiros,
que preferem sempre chegar a esses notáveis portos por mar, veem como a porta
dos fundos da cidade, mas, embora ele próprio sendo italiano nato, desembarcou
ali não por escolha ou costume, mas pela simples imposição do clima cada vez
pior: o aeroporto estava envolto em névoa, ele tivera que pousar em Milão, onde
a neve já começava a cair, então pegara o trem de lá - e com pressa para não
ficar preso, correu em direção ao leste à frente da tempestade que começava a
se formar, como se tivesse sendo perseguido por assassinos encapuzados. O
professor, enquanto se desvencilhava desesperadamente do congestionamento de
Milão com sua bagagem impossível, se consolou com a observação, infelizmente
expressa em voz alta, um hábito vergonhoso que piora com a idade, de que tal
prolongamento da viagem iria, ao menos, fornecer-lhe mais tempo para se adaptar
a esse retorno precipitado à sua terra natal depois de tantos anos no exterior
e para preparar seu espírito para entrar no que era, não apenas, por si só, uma
obra de arte universalmente reconhecida, mas também o cenário para o que ele
esperava ser o auge (assim como fora uma vez o estopim) de sua própria vida vista
apenas através daqueles termos: uma obra de arte.
Pois foi aqui, um dia há quase um
século, aqui nesta ilha, então conhecida popularmente como a "Ilha das
Abelhas Operárias", que ele, caído em abjeta rendição de joelhos, abraçou
os joelhos da própria Virtude, e assim, a não ser por um deslize ou outro (isto
é, ele espera poder ser capaz de
esquecê-los: sua breve e abortiva carreira no show business, por exemplo, uma
desventura que ainda é dolorosa demais para ser lembrada, mesmo quando,
conforme fez em seus últimos escritos, ele tenha, através do autoexame
excruciante, a transcendido, ou pelo menos tentado), colocou em prática uma
vida livre do ócio e da fantasia e outras neoplasias do espírito, uma vida
digna, ele espera (e em seu coração acredita), dos joelhos que uma vez abraçara
com tanto ardor, molhando-os, então, com suas lágrimas de gratidão, o infame
nariz escorrendo naquele estado febril que só poderia ser chamado de graça
redentora.
É
essa vida, tão dela quanto dele, que ele está agora tentando celebrar ou, pelo
menos, elucidar em sua mais nova e talvez (pois ele tem poucas ilusões)
derradeira obra, uma grande tapeçaria autobiográfica na qual são trançados
todos os ricos e variados fios de seu destino pessoal singular sob o único tema
predominante do amor virtuoso e o trabalho enobrecedor solitário que lhe dá
substância exemplar: Existenz, como
um grande filósofo a chamara. Ensaios baseados nesta obra já foram, por
aclamação geral e, a essa altura, familiar, publicados, mas a conclusão do
livro, assim como a própria retidão numa época mais infeliz, continua a
escapar-lhe. E assim, seguindo os passos de seu grande exemplo e precursor São
Petrarca, ele fora atraído de volta a esta cidade, de certa maneira,
impetuosamente, verdade seja dita, mas de maneira explicável também, tomado
como estava, pela súbita e vívida convicção de que apenas ao voltar aqui - às
suas, por assim dizer, raízes - que encontraria (certamente dentro de si, o
lugar sendo apenas o catalisador) aquela metáfora sintetizante que poderia
encapsular adequadamente o todo unificado que a sua vida tem sido, e assim
proporcionar-lhe o seu capítulo final. Aquele, em conjunto, com talvez uma
certa inquietação do espírito, provocada pelos sintomas alarmantes de sua
doença desenfreada: se não agora, afinal, quando?
É
esse seu opus magnum, em todas suas manifestações físicas (no disco rígido do
seu computador portátil, em duas cópias de segurança salvas em disquetes e no
volumoso impresso, impresso este, tão editado e re-editado - ele não passa de
um perfeccionista - que mais se assemelha a um manuscrito medieval), que é a
principal causa de sua atual angústia. Ele só consegue levantar poucos
centímetros de cada vez, carregando uma parte por alguns passos à frente,
voltando para o resto em viagens sucessivas, avançando pela plataforma tomada
pelo vento em direção à estação, como um caranguejo, e com o humor de um
também, cansado e com dor de cabeça e, ainda numa espécie de estupor do seu
cochilo inquieto a bordo do vagão superaquecido (na verdade, o prolongamento da
jornada fez muito pouco bem). Onde estão os carregadores? Talvez seja tarde
demais. Ele não faz ideia das horas. Está escuro, mas o dia inteiro tem sido
assim. Qualquer que tenha sido o dia: ele nem sequer tem certeza disso, de tão monotonamente
interminável que se tornou essa descabida jornada. Em suas viagens, ele está
acostumado a ser recepcionado em todos os lugares por acadêmicos mais jovens,
atendido e tratado com reverência singular devido a sua idade e distinção
acadêmica (apenas no trecho de Nova Iorque a Paris que lhe ocorreu, por
exemplo, que não reservara um quarto de hotel, algo que ele praticamente
esqueceu como fazer sozinho, e agora, embora tenha sido desejo expresso seu
proteger sua solidão e anonimato nesta ocasião específica, uma ocasião que para
ele é reverentemente sentimental, uma viagem aos segredos do fundo de seu
coração, como costumavam dizer no estúdio em Hollywood, sentia-se, ainda assim,
um tanto quanto traído e injustamente negligenciado, tanto que, quando um
carregador finalmente aparece, bem no momento em que pelejava com suas malas e
caixas às portas da estação, o professor, lágrimas ardendo nos cantos dos
olhos, deixa escapar: "Onde é que você se meteu? Eu não preciso de você,
seu idiota! Vá embora!"
"Como queira, senhor", responde o carregador
fazendo uma reverência obsequiosa (ele usava uma máscara de carnaval com o bico
longo e óculos de Médico da Peste sob seu chapéu azul "PORTABAGAGLI",
um pouco de simbolismo gratuito do qual o professor, sob domínio de sua
estranha enfermidade e com as malas resignadamente entaladas nas insolentes
portas da estação, poderia muito bem abrir mão), e então se vira e vai embora
capengando triste, empurrando o carrinho vazio à sua frente.
O professor olha para a
solitária estação, lembrando-se de um estudo que escrevera no início de sua
carreira sobre "A Tirania do Perspectivismo" e se dá conta, com o
coração apertado, de que ele não consegue nem mesmo chegar, por conta própria,
às portas de saída do outro lado, quanto mais a um hotel distante e nem mesmo
reservado. "Espera!" chama sua voz fina de petulância e auto piedade
(certamente o hotel terá sua própria gôndola, esta cidade não tem suas
conveniências, mesmo para o viajante solitário). O porteiro vira a cabeça e
inclina seu bico branco com ar de superioridade, por cima da corcunda.
"Para o centro de informações turísticas, por favor! Ora vamos,
companheiro, não temos a noite toda! "
"Impossível dar um passo maior do
que a perna", resmunga o carregador de mau humor, capengando de volta, de
má vontade, quiçá debochadamente. "Então não perca as estribeiras,
padrone. Como diz o ditado: quem muito corre, depressa cansa."
"Também
dizem por aí que língua comprida faz a vida curta", observa o professor
irritado enquanto assiste o porteiro jogar sua bagagem desajeitadamente no
carrinho. "Cuidado aí, tem um computador..."
"A pressa é a inimiga da
perfeição", insiste o carregador, pegando o computador e o derrubando no
chão. "Ai! Que azar! Agora veja só onde toda sua pressa nos levou! Mas
deixa estar, Dottore, não precisa fazer caso disso - devemos aceitar as coisas
como elas são, a vida não é um mar de rosas, como diz o velho ditado! Agora,
venha!"
O professor, exasperado demais para
responder, segue o carregador enquanto ele se arrasta morosamente, curvado como
um anzol pelo peso dos anos e da bagagem empilhada (o tempo lhe parece ser mais
evidente no quadril), pela estação vazia, que agora ecoa distante o som de
música pop e das rodinhas barulhentas de seu carrinho de bagagem, enquanto
seguem em direção à placa amarela do centro de informações ao fundo. Onde ele
tem toda a intenção de se queixar do canalha insolente. Ele deixou o computador
cair de propósito! Algumas indignidades não devem, num mundo civilizado, ser
toleradas, mesmo se cometidas por pessoas inválidas. Ele não está pensando em
si mesmo, é claro, um pobre miserável como qualquer outro, vagamente falando,
mas sim naquele insubstituível trabalho de arte, literatura e pensamento social
do qual ele foi apenas um intermediário e transmissor, por assim dizer, o
carregador é o guardião temporário deste trabalho de grande importância,
amplamente reconhecido, mesmo antes de sua publicação, e merecedor de pelo
menos o mínimo de cuidado e respeito.
Além disso, se ele tiver que acionar seu seguro, precisará preencher um
relatório; ele não tem escolha.
Mas o centro de informações turísticas
está fechado -- ou fechando: a mulher na porta está trancando a porta neste
exato momento! "Pare!", grita o professor aflito, avançando em sua
direção aos tropeços. "Um quarto --!"
A atendente do centro de
informações, surpresa, deixa cair suas chaves que tilintam como colherinhas de
café ao atingir o chão. "Um quarto --?" Ela engasga com voz rouca,
seus longos cachos castanhos agitados pela confusão. Então, ela se agacha
depressa e, tateia o chão à procura da chave com uma mão coberta por uma luva
negra, sem conseguir ver nada devido à máscara que usava, que parece ter ficado
torta em seu rosto por causa de seus movimentos bruscos.
"Permita-me, signorina", diz o
carregador, ajoelhando-se e metendo seu longo e curvo bico embaixo das saias da
mulher, deixando o professor quiçá ainda mais chocado que a atendente agachada,
que, ao ouvir o carregador gritar, debaixo dela, a voz abafada por causa do
manto envolto em suas orelhas, "Aha! Peguei!" meramente repete
ofegante, "Pegou?" e se põe
desajeitadamente de pé num pulo, pisando na bainha da saia, (e ao fazê-lo,
ouve-se o claro som de tecido rasgando-se e, enquanto tenta desesperadamente
segurar com sua mão esquerda o cós que caía, o professor nota que a pobre
mulher não tinha, ao que parece, a outra mão) e pelo visto, pisou no carregador
também, que solta um grunhido rouco e abafado, algo sobre traseiros sujos de
gente lerda e burra, depois levanta, com seu nariz de papel entortado para o
lado.
Há então um momento constrangedor em que
a atendente do guichê de informações turísticas, pálida e desconcertada (claro,
essa é a expressão cavada em sua máscara, mas o professor supõe que este seja
um verdadeiro exemplo de como a arte reflete a realidade sob sua superfície)
segura sua saia rasgada com sua única mão, logo não tendo outra para receber as
chaves que o carregador, aparentemente incapaz de se endireitar depois de tanto
tempo curvado, estende-lhe penosamente, e é um momento, fugazmente rígido como
uma fotografia antiga (exceto pelo fato de que os três estão tremendo de leve
como se estivessem aterrorizados e cientes da rigidez em questão), no qual o
viajante cansado subitamente sente, como um vento gelado descendo por suas
costas, a terrível vulnerabilidade de sua atual situação. Talvez este seja, com
toda sua ironia, o fim, ele pensa, talvez eu deva morrer aqui, aqui neste
saguão deploravelmente vulgar com suas banalidades ressonantes, sua aura cheia
de despedidas insignificantes. E este pensamento não existe em vão, não é um
pensamento de auto piedade, mas um simples reconhecimento das forças que se
esvaem, da opressão de suas incapacidades, dentre às quais ele deve agora
incluir, não havendo nenhuma outra explicação para a completa loucura dessa
viagem impensada, o surgimento galopante da senilidade. Oh, um tolo! Um tolo! E
em breve, talvez mesmo, a apenas poucos passos de alcançar seu objetivo (para
casa, ele está pensando, eu só queria voltar para casa!), um tolo morto. . .
"Não me diga, cara mia", exclama o
carregador, de repente, erguendo-se e metendo a chave, se é que é uma chave,
com força no vestido da funcionária, "que o escritório está fechado!"
"Ah, é, tá
sim!", grita a funcionária assustada, seus cachos caindo pelos ombros e as
chaves escorregando entre seus seios. "O escritório está fechado! Fechado!"
"Mas
sério", insiste o carregador, "não há nada disponível em toda Veneza?
Nenhum quarto sobrando? Estamos no meio do inverno e --"
"Estamos no inverno, entende, e não
há nada disponível", responde a funcionária bruscamente, segurando
firmemente as saias, mas recuperando, de certa forma, a compostura. Ela para.
Limpa a garganta, vira a cabeça para um lado, depois para o outro. "Em
toda Veneza. Nenhum quarto para --"
"Sim, sim, já entendi. E é sem
dúvidas por isso que você estava acabando de fechar o escritório, sua criatura
estúpida", suspira o carregador, balançando a cabeça com pesar, como se o
mau presságio terrível que tomara o professor o tivesse apossado também.
"Er,
eu estava acabando de fechar," a funcionária conclui como que colocando um
ponto final, e para o viajante exausto, é como se o mundo inteiro estivesse
fechando suas portas ao seu redor. Em sua crescente melancolia, ele se vê
debruçado sobre suas malas, como se sua vida estivesse dentro delas e como se
desejasse, pela última vez, abraçá-la, antes de serem separados para sempre.
"Porque... "
"Pois bem!", exclama o
carregador, animando-se de repente, e colocando o professor de pé novamente.
"Un po 'di cuore, professore, o diabo nem sempre é tão feio como o pintam!
Volere è potere, como se costuma dizer, o que você deseja será seu, pois por
sorte, bem hoje ouvi dizer que um dos grandes palazzi de nossa cidade acabou de
ser convertido em um hotel esplêndido, direcionado especialmente a apreciadores
da cultura como o senhor."
"Sim! Direcionado!
Cultura!" Repete a atendente do centro de informações, e logo em seguida
cambaleia um ou dois passos para trás, como se o carregador a tivesse chutado.
"Bem,
não é perfeito, é claro, as reformas ainda estão em andamento," diz o
carregador suavemente com sua voz grave gasta pelo tempo, espreitando o velho
viajante por cima de seu nariz curvado, "mas, dadas as circunstâncias,
parece ser uma questão de pegar ou largar, se você me entende, a menos que,
esta noite, você queira pedras molhadas como travesseiro. E, como o
proprietário é um amigo meu, estou certo de que posso, eh, mexer uns pauzinhos,
perdoe-me a expressão. Talvez amanhã haja algo melhor, mas para esta noite,
professore: melhor um pássaro na mão . ."
"Sim…” No entanto, o velho
acadêmico parece ter criado raízes no local. Isso não é hesitação, não é dúvida
- que escolha ele tem, afinal? -, mas uma simples falta daquela força de
vontade que o porteiro, de modo prestativo, lhe desejou. Sente-se vazio -
desencordoado, como diria no passado (ele treme só de pensar), os braços e
pernas frouxos pela fadiga e por um mau pressentimento profundo. Ele teme agora
que a metáfora que viera de tão longe buscar não seja aquela de encapsulamento,
mas sim de dissipação, não de soma, mas de ironia e ausência. Ele havia
imaginado um círculo, percorrendo-o em toda sua circunferência, como se
formasse um oráculo, mas agora consegue apenas se ver caindo indefeso pelo
buraco em seu centro. Eu a decepcionei, ele pensa. No final das contas, eu a
decepcionei!
O
carregador o toma pelo braço. "Tudo bem, signore, não fique aí parado com
as mãos na cintura! Vamos pôr o pé na estrada. Ou numa ponte ou duas, seja este
o caso! Como diz o ditado: a necessidade faz o lobo saltar!" Eles deram
arrivederci à atendente que, por nenhuma razão aparente, vira-se, e com pressa,
vai de encontro a uma parede. Então, juntos, saem, o professor e o porteiro
saem, na amarga noite adentro. "Coragem, Dottore! É logo ali! Logo você
estará dormindo como o Papa!"
Arquivo: https://docs.google.com/document/d/1DUPZ8xETa6aw1gcgCYxFFj-EOzpHEcfWyK9yDPnuZas/edit
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